A idéia
O que move um ser humano a deixar o conforto e a segurança de sua casa para se aventurar em uma trilha implacável que não aceita erros, que pode acabar com uma amizade ou transformar seu amigo em irmão. Essa é a trilha do Bonete que permanece honrando o título de mais difícil do Brasil e foi nela que nossos cinco guerreiros e suas máquinas foram colocados a prova e foram literalmente além dos limites.
Antes de começarmos a trilha nós pesquisamos muito a respeito e o que nós ouvíamos era muito desanimador, na maioria das vezes nos diziam que seria impossível realizar o percurso de 30 Km repleto de obstáculos extremos ( ida e volta ) e foi em um desses golpes de sorte que fiz amizade com um grupo que havia feito o percurso a exatos 12 meses atrás, ouvi dicas e foi exatamente desse grupo que recebemos o incentivo que faltava: “Nada é impossível se prevalecer o espírito de equipe e a vontade de fazer acontecer”.
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Na entrada da trilha as 6:00 da manhã. Atrás o mar
sumindo no horizonte.
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Cachoeira da Lage - Pedras muito lisas exigiam muita
cautela e apoio dos amigos.

Cachoeira do Areado - As chuvas recentes deixaram o
nível muito alto. Atravessar aqui só com a moto suspensa.
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Rumo ao Bonete
O time levantou cedo e era formado por 4 homens ( Kadu, Jucelino, Rogério Careca e Hugo Bevilacqua ) e completando a equipe a Lila que iria tentar fazer história sendo a primeira mulher a percorrer de moto a Trilha do Bonete.
A aventura começou exatamente as 6 da manhã, e com pouca dificuldade chegamos a Cachoeira da Lage, mas deveria se chamar o Portal do Inferno !, desse ponto em diante a dificuldade ficou enorme mas para descer todo santo ajuda e então mandávamos as motos pedregulhos abaixo sem pestanejar e então começaram a vir as subidas intermináveis de pedras enormes e troncos caídos e como se já não bastasse chegamos a Cachoeira do Areado e ela estava muito acima do nível normal, passar a moto só se fosse nas costas e tomando o cuidado para não deixar as máquinas caírem na água, depois de muito sufoco atravessamos as 5 motos e o descanso ali na beira do rio foi mais do que merecido.
A travessia da Cachoeira do Areado foi providencial, esfriamos nossos “radiadores” e ganhamos energia para mais algumas subidas de arrepiar e para finalizar os obstáculos radicais dessa trilha passamos por mais uma cachoeira enorme repleta de pedras sobrepostas, enfim, o Bonete...

Jucelino descendo um dos paredões de pedras. Na volta o
esforço é dobrado.
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Bonete
Chegar até a praia era nosso objetivo e ela estava logo ali, então sem
perder mais tempo estacionamos nossas motos e tratamos de procurar um
lugar para almoçar.
Ao contrário do que algumas pessoas haviam nos falado os moradores do
Bonete foram extremamente acolhedores e nos trataram como verdadeiros heróis,
e entre uma garfada e outra nós demos falta de um membro do grupo, “Cadê
o Hugo ?”, o nosso amigo tomado pela exaustão e pelo desespero voltou
de barco e não teve tempo nem de nos dar “tchau”, e sua atitude foi
correta porque cada um sabe até onde vai seu limite e foi uma decisão
difícil de ser tomada, sobrou para os 4 sobreviventes a difícil tarefa
de voltar pela trilha implacável e ela estava lá pronta para nos por a
prova mais uma vez.
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Essa paisagem era nossa maior recompensa. Chegar até
aqui já tinha sabor de vitória.
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Hugo atravessando um dos diversos riachos

Exaustão total - Em determinado momento o silêncio
prevaleceu e ali percebemos o quão cansados todos nós estávamos.
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No limite do ser humano
Depois daquela última olhada para aquela praia paradisíaca nós pegamos
o caminho de volta e os primeiros 5 Km renderam bem, atravessamos a
Cachoeira do Areado só que dessa vez quem precisou entrar no
“hauteromotismo” foi a Lila, sem o Hugo sobrou pra ela também e sem
desanimar passamos as 4 motos pelo rio, na seqüência uma subida de
pedras infernal, e então todos nós pensamos que só teríamos mais 2
lugares ruins para passar mas como vocês poderão perceber esse foi o
grande erro que cometemos, subestimamos os desafios dessa trilha e onde nós
passamos descendo as pedras com alguma dificuldade eram verdadeiras
muralhas de pedra a serem vencidas no retorno, depois de passar uma dúzia
de lugares ruins começou a bater o esgotamento físico e mental de todos,
a noite foi caindo e conforme anoitecia a trilha ficava cada vez mais difícil,
até os lugares mais simples se complicaram e mal tínhamos condições de
pilotar as motos, o esgotamento era geral e quando todos se calaram por
alguns minutos deitados sobre as pedras na escuridão absoluta nos demos
conta de que não conseguiríamos chegar em casa tão cedo, confesso que
aquela situação deixou todos assustados. Para piorar a situação a moto
do Rogério Careca ficou sem farol depois de uma queda, se andar com farol
já era perigoso e desafiador a situação ficou ainda pior ao ter que se
basear apenas pelo farol de quem vinha atrás e isso era algo perturbador
demais para quem já estava dando tudo de si.
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Curiosidades sobre a trilha:
Distância Percorrida: 30 Km
Tempo total da aventura: 29 horas
Litros de água consumidos por pessoa em média:
6 litros
Litros de Combustível: 10 litros em média
Motos utilizadas: XT 225, XR 250 Tornado, DR
350, CRF 250X |
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Depois de descansar por uns 30 minutos conseguimos subir
mais um paredão de pedras com muito sacrifício e pensamos que aquele era
o último subidão da trilha, então andamos por mais alguns metros e logo
pudemos perceber que havíamos errado na conta e quando vi mais uma
muralha todos entraram em profundo desanimo, aceitamos a situação e
pudemos perceber o quão implacável é essa trilha, exaustos, esgotados
fisicamente, com fome, sede e agora abalados psicologicamente. Apenas o
Jucelino apostava suas últimas fichas para tentar chegar o final do paredão,
depois de ver tanto esforço de sua parte nós conseguimos um pouco de
energia e o ajudamos a chegar ao topo, desse ponto em diante nossa história
se divide em dois.
O guerreiro solitário
O Jucelino preocupando-se com os familiares de todos os envolvidos não queria parar a trilha por nada e depois de vencer a última muralha ficou combinado de que o Kadu, a Lila e o Careca ficariam aguardando no paredão de pedras enquanto que o Jucelino tentaria terminar a trilha sozinho, então por volta da 1 da manhã nós vimos o farol sumindo por entre as árvores, o som do motor foi enfraquecendo e achamos que ele conseguiria terminar a trilha sem maiores problemas, mas pela frente ainda haviam uns 6 lugares complicados e pra ajudar a moto ficou sem gasolina.
Depois de andar a pé cerca de 3 Km a trilha acabou e o Jucelino conseguiu gasolina com um morador da região, então ele retornou para sua moto e usando todas as suas forças ele conseguiu sair da trilha ileso por volta das 5 da manhã e chegando a pousada ele tranqüilizou as respectivas famílias e avisou que nós chegaríamos depois.

Pedras enormes e subidas íngremes, misture bem e terá a
trilha mais difícil do Brasil
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Cansados, sujos, com fome e sede. Essa era a nossa
situação por volta da meia-noite.

Jucelino - Sem sua experiência nosso sucesso seria
incerto. Força de vontade fora do comum, liderou com maestria o sucesso
da nossa aventura.
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Careca - Determinação e garra para chegarmos até o
fim da trilha.

Lila - Habilidade de sobra e a coragem de poucos.
Primeira mulher a percorrer o Bonete de Moto.
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Hora de vencer
Enquanto o Jucelino travava uma batalha campal sozinho para sair da trilha, o Kadu, a Lila e o Careca tentavam descansar e superar o frio da mata fechada. Na escuridão da noite com as roupas molhadas pelo suor e pelos riachos a única solução era tentar ficar o mais próximo possível um do outro e dividir o calor, o medo de animais perigosos como cobras e aranhas e para não passar frio valeu até dormir de capacete, então por volta das 5:30 da manhã começou a clarear, e a essa altura estávamos com muita fome e com 3 goles de água na mochila, de pouco em pouco as motos iam subindo as pedras enormes e por volta das 9 da manhã estávamos finalmente deixando a muralha para trás, o que viesse agora com certeza seria mais fácil, mas como o esgotamento era grande até as subidas mais simples demandavam mais tempo e por volta das 12:00 horas avistamos a Cachoeira da Laje, e aquilo foi uma injeção de adrenalina, o ponto final de uma história que foi sofrida mas acabou bem, e em menos de 5 minutos nós avistamos o Hugo e o Breta ( Valeu hein ! ) descendo a trilha a pé para nos ajudar, eles traziam comida e gatorade, e ali mesmo na cachoeira tratamos de nos reidratar e comer alguma coisa, era o fim de uma jornada de quase 30 horas de muito sufoco, medo de não conseguir chegar, de se machucar ou até mesmo que o São Pedro resolvesse nos castigar, obrigado, obrigado ! Estávamos livres, com uma lição de vida enorme no currículo, os amigos viraram irmãos e como a placa de inauguração da estrada dizia: “O impossível tornou-se possível” e de quebra entramos para a história pois tivemos a honra de presenciar a primeira mulher a percorrer a trilha mais difícil do Brasil de moto. Parabéns a Lila por mais essa conquista.
Quanto aos amigos o que posso dizer ? Nossa amizade se fortaleceu, nosso espírito de equipe foi colocado a prova e com o sacrifício de todos nem a trilha mais difícil foi capaz de nos deter. Até a próxima aventura meus amigos ! |
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Comentário enviado por e-mail
De: EDU
Oi ! Pirei no relato e nas fotos do rolê na Ilha....!!!! Num mar de
mesmices , intrigas e egos , esta foi uma das melhores matérias que li
nos ultimos tempos. Simples , honesto , objetivo e repleto de espirito.
Parabéns a todos! Esta é a forma como as coisas deveriam ser. Sempre.
Edu
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